Ao terceiro disco os Mind Da Gap apresentam sinas inequívocos de maturidade.

O álbum "A Verdade" revela mais uma vez que o hip-hop em Portugal ainda tem uma palavra a dizer. Os Mind Da Gap não têm tido vida fácil. Intérpretes de uma ética hip-hop dificilmente compreendida no nosso país, o trio do Porto constituído por Serial (DJ), Ace (MC) e Presto (MC), regressa agora com o seu álbum mais ambicioso até à data. Depois de um EP homónimo editado em 1996 e da edição, em 1997, do álbum "Sem Cerimónias", o novo álbum, "A Verdade", constitui o momento mais equilibrado de um grupo que continua a acreditar que é possível colocar o hip-hop no mapa em Portugal.

 

P. - A primeira pergunta é inevitável. O título do álbum, "A Verdade", tem algum significado especial?
ACE - Quando escolhemos um nomes desses é porque existe um significado que é sugerido ao longo de todo o disco. O título "A Verdade" não foi algo que tivéssemos definido antes de termos começado a trabalhar no disco, mas sim algo que nasceu "a posteriori" depois do produto estar acabado. Este álbum é a nossa verdade.



P. - O EP homónimo que lançaram em 1996 denotava alguma verdura e o álbum "Sem Cerimónias", de 1997, reflectia ainda alguns modelos americanos. No novo álbum sente-se que existe a procura de uma identidade Mind Da Gap. São da mesma opinião?
A. - Sim, apesar de, no princípio, mesmo quando seguíamos os modelos daquilo que era feito nos Estados Unidos, já íamos tendo uma identidade própria. Sou de opinião que o primeiro EP saiu na altura certa, mas é lógico que não possuíamos a maturidade dos dias de hoje. Entretanto crescemos como pessoas e como músicos e é por isso que essa identidade começa a ser muito mais nítida.


P. - Este álbum parece mais trabalhado que os anteriores e sente-se que lhe tentaram atribuir unidade. Como foi isso feito?

SERIAL - Este disco foi melhor estruturado. Mal acabámos o "Sem Cerimónias" começámos a trabalhar nele, o que contribuiu para que os temas se consolidassem com mais tempo. É um disco mais sólido, mas cada faixa corresponde a um sentimento diferente. Normalmente faço os instrumentais e depois cabe-lhes a eles escolher os que melhor se adequam ao imaginário que querem sugerir.
A. - Não temos propriamente um método. As coisas surgem de forma muito espontânea, embora normalmente na composição dos temas as partes instrumentais surjam primeiro e só depois as vozes. A maior parte das vezes as partes instrumentais acabam por "contaminar" a feitura das letras e de todo o universo do álbum.


P. - Neste álbum a escrita está mais depurada e não existe tanta dispersão temática como nos discos anteriores.
A. -
Este álbum, se contarmos com o disco-bónus, é muito maior que o outro. Muitas pessoas dizem que é um álbum mais denso e obscuro e penso que globalmente se nota isso. Penso que é um álbum que cria uma sensação de ambiente muito maior pela sua duração e pela forma como as faixas foram encadeadas. No Presto senti que existiu uma evolução enorme, até pelo envolvimento diferente que ele teve com este álbum. No meu caso, senti que evoluiu ao nível da escrita muito mais do que ao nível do rap.


P. - Como é que um grupo como os Mind Da Gap, que representa uma certa pureza hip-hop, se sente num contexto como o português, onde os grupos semelhantes com discos editados são praticamente inexistentes?
A. -
Com discos editados e com uma estrutura editorial por detrás, os Mind Da Gap são provavelmente o grupo mais purista do hip-hop em Portugal. Naturalmente esse facto trouxe-nos alguns problemas. Por exemplo, os Da Weasel, os Ithaka ou o General D apresentam-se segundo um formato de banda, o que transmite uma outra imagem, principalmente nos concertos ao vivo. Apesar de nos termos imposto também no circuito dos concertos, demorámos muito mais tempo a consegui-lo, e isso tem a ver com a tal incompreensão que existe em Portugal sobre o que é o hip-hop.


P. - De qualquer forma, neste momento existe muita gente nova a fazer hip-hop baseada nos mesmos fundamentos que os Mind Da Gap. Aquilo que se passa hoje em dia, a nível "underground", não era o que devia ter sucedido há uns anos? Não vos parece que a seguir à edição da compilação "Rapública" existiu um certo deslumbramento?
A. -
Penso que sim. Na altura do "Rapública" a maior parte das grandes editoras olhou para o hip-hop como a nova galinha dos ovos de ouro. Era algo que estava a impor-se lá fora e pensou-se que aqui também poderia funcionar. Normalmente as coisas crescem por baixo para se criarem as bases e aqui sucedeu precisamente ao contrário. De um momento para outro tentou explorar-se meia dúzia de nomes sem que existissem estruturas. Agora é como se estivéssemos outra vez a começar do zero.


P. - Apesar de tudo são uns privilegiados, porque têm por detrás uma editora que apostou e acreditou em vocês. Este disco constitui o momento da verdade para os Mind da Gap?
A. -
Penso que sim. Como podes ver o título sempre tem algum significado... [Risos.] Não vai ser uma situação do género "é agora ou nunca", porque a editora nunca colocou o assunto dessa forma, nem nós vamos desistir se as coisas correrem mal, mas toda a gente sente esse peso, mesmo se ele está presente de uma forma inconsciente.


P. - O álbum "Sem Cerimónias" foi editado em Espanha onde recebeu excelentes críticas da imprensa. Como sentiram esses ecos vindos de Espanha?
A. -
Com satisfação, porque não é muito vulgar um grupo que sente dificuldades em se impor em Portugal despertar o interesse de uma editora espanhola e receber excelentes críticas. Fez-nos muito bem ao ego ler coisas do género "o melhor grupo de hip-hop da Península Ibérica" ou "um dos melhores discos de hip-hop dos últimos tempos", mas tirando isso não existiram grandes reflexos. Fizemos apenas um concerto em Vigo e acabámos por nunca tirar proveito de sermos uma espécie de banda de culto em Espanha. Se calhar, o culto mantém-se precisamente por causa dessa invisibilidade... [Risos.]


P. - Num dos temas participa o colectivo espanhol La Familia. Como é que surgiu essa colaboração?
A. -
A nossa relação com os La Familia é a mesma que mantemos com os Daelema do Porto. Ambos fazem parte da Colisão, que é uma entidade organizativa que criámos e que engloba uma série de projectos. A colaboração com os La Familia surgiu por acaso, depois de um dos seus membros ter ouvido um tema nosso numa festa perto de Madrid. Ele não fazia a menor ideia que existia hip-hop português, mas, depois de ter falado com o "disc-jockey" de serviço nessa noite, chegou até nós e contactou-nos. Mais tarde, conhecemo-nos em Vigo e vimos que tínhamos o mesmo entendimento do que é o hip-hop. Neste momento existem alguns contactos com distribuidoras espanholas para o novo álbum ser lá editado. Vamos a ver se é possível promover lá o disco, fazer concertos, etc.

Vítor Belanciano